Dezessete ministros da Educação e secretários permanentes de países africanos assumiram um compromisso político para fortalecer os sistemas nacionais de dados educativos e utilizar evidências de forma mais sistemática na definição das políticas de aprendizagem. O entendimento foi alcançado durante uma reunião ministerial realizada em 15 de julho de 2026, em Lilongwe, Malawi, no âmbito do terceiro Africa Foundational Learning Exchange (FLEX2026). 

O encontro foi organizado pela Association for the Development of Education in Africa (ADEA) e concentrou-se num problema estrutural: governos precisam de saber com maior precisão o que os alunos estão realmente a aprender antes de decidir onde investir, quais políticas alterar e quais intervenções ampliar.

A iniciativa não trata simplesmente da digitalização de escolas ou da instalação de novas plataformas. O acontecimento central é o compromisso de reforçar a infraestrutura de dados que sustenta as decisões dos sistemas educativos africanos.

Decidir com dados, não apenas com estimativas

Administrar um sistema nacional de educação exige informação sobre milhões de estudantes, professores e escolas.

Taxas de matrícula e abandono, progressão escolar, disponibilidade de professores, desempenho dos alunos e distribuição dos recursos são alguns dos indicadores que ajudam governos a compreender o estado real do ensino.

Quando esses dados são incompletos, desatualizados ou armazenados em sistemas que não comunicam entre si, torna-se mais difícil identificar problemas e avaliar se determinada política está realmente a produzir resultados.

Foi esse ponto que os participantes do encontro procuraram enfrentar.

Segundo a ADEA, os representantes dos 17 países reafirmaram a necessidade de construir sistemas capazes de gerar dados confiáveis, produzir evidências relevantes e transformar essa informação em decisões concretas para melhorar a aprendizagem. 

A diferença é importante. Recolher informação não é suficiente. Os dados precisam de chegar às pessoas responsáveis pelas políticas públicas numa forma que permita comparar resultados, identificar lacunas e orientar recursos.

O foco está na aprendizagem fundamental

A reunião aconteceu durante o FLEX2026, evento dedicado à aprendizagem fundamental em África.

Este conceito concentra-se nas competências essenciais que os alunos devem desenvolver nos primeiros anos de escolaridade, particularmente leitura, escrita e matemática.

Quando estas bases não são consolidadas, as dificuldades tendem a acompanhar os estudantes nas etapas seguintes da educação. Um aluno que progride de classe sem compreender adequadamente textos ou operações matemáticas básicas terá maiores dificuldades para acompanhar conteúdos mais complexos.

Por isso, medir apenas quantas crianças frequentam a escola oferece uma visão incompleta.

Os sistemas educativos precisam também de medir o que essas crianças conseguem efetivamente aprender.

O compromisso assumido em Lilongwe procura aproximar essas duas dimensões: acesso à educação e evidências sobre os resultados da aprendizagem.

Tecnologia entra como infraestrutura

A transformação digital da educação é frequentemente associada a computadores, tablets, plataformas de ensino e inteligência artificial. Contudo, existe uma camada menos visível e igualmente importante: a infraestrutura utilizada para recolher, organizar, validar e analisar dados educacionais.

Um sistema digital bem estruturado pode permitir que informações provenientes de escolas e administrações locais sejam consolidadas de forma mais rápida e consistente.

Isso pode ajudar um ministério a perceber, por exemplo, onde existe maior escassez de professores ou quais regiões apresentam dificuldades persistentes de aprendizagem.

A tecnologia, neste contexto, funciona como infraestrutura para melhorar a capacidade de gestão.

Mas digitalizar dados deficientes não resolve automaticamente o problema. Os países precisam de estabelecer processos de recolha, padrões de qualidade, responsabilidades institucionais e capacidade técnica para interpretar corretamente a informação.

Um compromisso que precisa chegar às escolas

A reunião ministerial foi antecedida por um workshop técnico realizado nos dias 13 e 14 de julho, ligado ao Education and Skills Data Challenge. Segundo a ADEA, a discussão técnica ajudou a preparar o diálogo político realizado posteriormente com ministros e altos responsáveis governamentais. 

Esta ligação entre equipas técnicas e decisores políticos é particularmente relevante.

Especialistas podem desenvolver modelos sofisticados de recolha e análise de dados, mas esses sistemas terão impacto limitado se as conclusões não influenciarem decisões governamentais. Da mesma forma, responsáveis políticos precisam de dados suficientemente confiáveis para decidir onde direcionar financiamento e quais programas devem ser revistos.

O desafio passa, portanto, por criar uma cadeia funcional entre a escola que produz a informação, os sistemas que a organizam e os responsáveis que utilizam essa evidência.

Dados educativos tornam-se ativos estratégicos

O compromisso dos 17 países mostra que a discussão sobre educação digital em África está a avançar para além do simples acesso à tecnologia.

Construir sistemas educativos mais eficientes também exige capacidade para compreender o que está a acontecer dentro deles.

Isso significa transformar dados dispersos em informação útil e informação útil em políticas verificáveis.

Para os governos africanos envolvidos no FLEX2026, o próximo passo será fazer com que o compromisso político resulte em sistemas nacionais mais robustos. A qualidade dos dados, a interoperabilidade das plataformas, a formação das equipas e a utilização efetiva das evidências continuarão a determinar o impacto dessas iniciativas.

O encontro de Lilongwe deixa, porém, uma orientação clara: melhorar a aprendizagem exige medir melhor a realidade. E, num sistema educativo cada vez mais digital, a capacidade de produzir e utilizar dados confiáveis passa a ser parte essencial da própria infraestrutura da educação.