O Gana está a testar uma combinação de drones, inteligência artificial e tecnologias digitais para enfrentar um problema de saúde pública que continua a afetar fortemente o continente africano: a malária. O projeto-piloto decorre no distrito de Ada East e procura avaliar se estas tecnologias podem melhorar a identificação de locais onde os mosquitos transmissores se reproduzem, especialmente em áreas de difícil acesso.
A iniciativa foi apresentada em 21 de julho de 2026 pelo TDR, programa de investigação em doenças tropicais copatrocinado pela Organização Mundial da Saúde. Participam no estudo o Programa Nacional de Eliminação da Malária do Gana, a Access and Delivery Partnership liderada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, a SORA Technology e o próprio TDR. O financiamento da parceria é assegurado pelo Governo do Japão.
O acontecimento chama atenção porque demonstra uma aplicação concreta de inteligência artificial fora dos usos que normalmente dominam a discussão pública, como chatbots e geração de imagens. Neste projeto, a IA está associada à análise de informação geográfica recolhida por drones para apoiar decisões de saúde pública.
Encontrar os locais onde o mosquito se reproduz
Uma das dificuldades do controlo da malária é identificar os habitats aquáticos onde os mosquitos se desenvolvem.
Dependendo da região, esses locais podem estar espalhados por grandes áreas, mudar com as condições ambientais e existir em zonas onde uma inspeção terrestre é demorada ou difícil.
No projeto realizado em Ada East, drones estão a ser utilizados para mapear o território. As imagens e outros dados recolhidos são depois apoiados por análise baseada em inteligência artificial para identificar potenciais habitats aquáticos de mosquitos.
A lógica é relativamente simples: quanto melhor for a informação sobre onde estão os locais de reprodução, mais direcionadas podem ser as intervenções das equipas responsáveis pelo controlo dos vetores.
Em vez de depender exclusivamente da observação manual de grandes áreas, os técnicos passam a dispor de informação adicional produzida a partir de dados capturados do ar.
O projeto ainda é uma avaliação
Há uma distinção importante neste caso: a tecnologia está a ser testada.
O TDR descreve a iniciativa como um estudo-piloto destinado a produzir evidências sobre a utilização de drones, IA e tecnologias digitais no controlo rotineiro da malária. Portanto, ainda não se trata de uma solução comprovada que tenha sido adotada nacionalmente pelo Gana.
Esta fase é fundamental em projetos de inteligência artificial aplicados à saúde.
Um sistema pode apresentar resultados tecnicamente interessantes e, ainda assim, enfrentar dificuldades quando utilizado em condições reais. Qualidade das imagens, características do terreno, clima, disponibilidade de operadores e capacidade das instituições para transformar os dados em ações são fatores que precisam de ser avaliados.
O objetivo do piloto é precisamente gerar esse tipo de evidência.
IA aplicada a um problema africano
A experiência também mostra como a inteligência artificial pode ser utilizada para problemas específicos do contexto africano.
Grande parte da atenção recente sobre IA está concentrada em modelos generativos capazes de produzir textos, imagens, áudio ou código. Contudo, machine learning e visão computacional possuem aplicações muito mais amplas.
Neste caso, a capacidade computacional é utilizada para analisar informação visual e geográfica relacionada com ambientes favoráveis à reprodução dos mosquitos.
A combinação entre sensores, drones, dados geográficos e modelos computacionais permite criar sistemas que observam fenómenos físicos e ajudam especialistas a interpretar grandes quantidades de informação.
Para estudantes de ciência de dados, este tipo de aplicação também demonstra que trabalhar com IA não significa necessariamente construir um modelo de linguagem. Problemas reais podem exigir visão computacional, processamento de imagens, sistemas de informação geográfica, engenharia de dados e conhecimento especializado da área onde a tecnologia será aplicada.
África continua no centro do problema da malária
A relevância do projeto torna-se ainda mais clara quando se considera o peso da doença no continente.
A Organização Mundial da Saúde continua a identificar África como a região que concentra a maior carga global de malária. Crianças com menos de cinco anos estão entre os grupos mais afetados.
Isso significa que melhorias na prevenção e identificação das áreas de transmissão podem ter impacto significativo.
Tecnologia, porém, não elimina sozinha a doença. O próprio projeto está integrado numa estratégia de controlo de vetores e funciona como instrumento de apoio às equipas responsáveis pelas intervenções.
Dados precisam de produzir decisões
Talvez a parte mais interessante do projeto do Gana seja precisamente a ligação entre recolha de dados e ação no terreno.
Um drone pode produzir milhares de imagens. Um modelo de IA pode encontrar padrões nessas imagens. Mas o valor aparece quando essa informação permite que especialistas identifiquem áreas prioritárias e decidam onde concentrar recursos.
Essa relação entre dados, algoritmos e decisão é uma das bases das aplicações práticas de inteligência artificial.
O piloto em Ada East ainda terá de demonstrar a sua eficácia em condições reais. Mas o acontecimento já oferece um exemplo relevante de como instituições africanas e parceiros internacionais estão a testar IA sobre um problema concreto do continente, utilizando tecnologia não como demonstração, mas como ferramenta para produzir informação que possa orientar intervenções de saúde pública.